quinta-feira, 25 de março de 2010
Verborrágico
- Sucesso total? - pergunta, com seu jeito descontraído.
- Sucesso total - confirmo, com um riso manchado.
Não importa quantos sóis enfrentemos. Ou chuvas pelas canelas. Nos rádios walk-talks, nos divertindo nas ondas curtas, ou "analisando" possíveis entrevistadas, para depois confirmar em sérias entrevistas. De certa forma, sempre estaremos ligados à paixão pela profissão escolhida. Ainda que a pauta caia.
Gabo, me ajude. Venha me tirar do peito a ilusão de amores tão desentendidos!
Estive em Macondo, em Bogotá, Nova Jersey e Nova York. Agora passeio pelas ruelas cruas da África do Sul, entre fotógrafos consagrados por imagens chocantes.
Até tentei descansar em becos curtos, mas fui arrastado pela enchente que carregou de tudo: móveis, lixo e corações.
Antes de tudo, reencontrei emoções que estavam engavetadas, acumulando poeira. Elas me levaram pela mão: caminhamos juntos em ruas enlameadas, procurando uma piscina para relaxar. E com risos.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
A Indústria Cultural e o amor.
A Industria Cultural, apresentada por Adorno e Horkheimer, representa a força midiática em relação ao meios de comunicação e o poder de influência sobre a sociedade. O termo aparece em um capítulo específico do livro Dialética do Esclarecimento, escrito por ambos em 1947. É uma análise da cultura dentro do sistema capitalista, em suas vertentes comerciais. O termo serve para designar o modo como a cultura se torna mercadoria pelos meios de mídia. Além disso, a forma como estes meios influenciam as massas é cultivado em seus ideais.
Não estamos falando aqui dos meios de comunicação em si, como a televisão, os jornais ou o rádio, mas do modo como estes meios são utilizados pela classe dominante para o controle social. Nossa abordagem, porém, é voltada a alguns dos produtos da Indústria Cultural, que como num ciclo, transforma tudo em produto. O âmago mercadológico da produção de cultura pelos meios midiáticos faz com que haja uma formação de pensamento de forma alienada, pois isso garante a falta de consciência do público, e o domínio do sistema imposto. Além disso, todas as abordagens da Indústria Cultural a qualquer assunto são superficiais, pois não há real interesse em transmitir uma mensagem por inteiro, caso esta não sirva para gerar o lucro. A única e mais utilizada visão é a de garantia de reprodução das condições de produção. O sujeito alienado não toma parte no todo, portanto não luta a favor de seus interesses, e se mantém dependente da Indústria Cultural, garantindo sua subsistência.
Da mesma forma que a cultura em geral é tratada como produto pela Indústria Cultural, a abordagem mais específica de determinados temas também é banal, visando apenas o lucro. O amor, portanto, é tratado como mercadoria, em produções quase sempre igualitárias e clichês. Como foi dito mais acima, por Schopenhauer, as tramas que possuem âmago amoroso são muito mais rentáveis, pois o interesse humano no assunto é intrínseco e latente. Trabalhar com o amor, portanto, gera lucro inestimável à Indústria Cultural.
O amor está nas novelas, nos filmes, nos comerciais, nas campanhas publicitárias, até mesmo nos jornais. Tudo o que traz amor, vende.
Para o professor e jornalista Rovilson Robbi Britto, nós temos uma dupla realidade social. Uma que é a do cotidiano, e outra, que é a realidade midiática. A Indústria Cultural procura então transformar os valores morais, o amor, a solidariedade, em valores mercantis. Isso atua junto à realidade cotidiana, mas não consegue alterar o que é natural do ser humano. Então, existe mesmo a banalização, porém não é de grande impacto aos valores sociais. A Indústria Cultural, para ele, cria sim padrões, mas não é algo seja a primeira a fazer. Ela estabelece padrões estéticos, morais, de relação, mas isso também se confronta com a realidade das pessoas em geral. Há uma parcela social que tem uma visão mais crítica, o que impede que haja uma totalidade de propostas de padrão vencedoras. Não existe uma regra. O ideal é o que é possível, por mais que a Indústria Cultural busque uma diferenciação comercial. É algo humano demais para ser controlado. O amor sempre deu as costas para qualquer impedimento social, moral ou ético, quando precisou. Não podemos, portanto, atribuir toda a culpa à Indústria Cultural.
A Indústria Cultural trabalha com o amor porque vivemos em uma sociedade de carentes, e ela dialoga com isso. É uma carência universal. Definir o amor em categorias opostas, como o “amor verdadeiro” e o “amor comercial” é perigoso, pois o amor rentável também não é uma exclusividade da Indústria Cultural. Fora dela, também existe a possibilidade da banalização, e pode acontecer de a Indústria Cultural trazer formas de amor verdadeiro. A carência social fragiliza o público, e a Indústria Cultural se aproveita desta fragilidade, para manipular, introduzir ideais. Então, o que é preocupante é como a Indústria Cultural consegue dialogar com esta carência. A porta de entrada para o público é a sua carência. Ela se apropria disso para manter o controle e garantir a rentabilidade.
Existe um reflexo social, a influência é realmente muito grande. Mas não podemos considera-la única. O que existe é uma proposta de banalização e padronização. Encontraremos o amor banal produzido pela Indústria Cultural, mas vamos encontrar também, talvez com um pouco mais de dificuldades, amores que entrem em contraponto. A Indústria Cultural até tenta “matar” o amor, mas a realidade é conflitante, o sentimento é natural ao homem.
O motivo destas tentativas de banalização, não só do amor, mas de todo tema tratado na Indústria Cultural é que para ela o fundamental é banalizar e se apropriar da característica do sentimento. Assim, ao invés de a pessoa estar com o amor, ela estará com a Indústria Cultural. Ao invés de amar alguém, a pessoa estará assistindo e vivenciando o amor da telenovela. Quando as pessoas têm alguma relação que foge a isso, de certa forma diminuem a capacidade de influência da Indústria Cultural.
A Indústria Cultural trabalha com duas formas de amor: uma é o amor impossível, a outra é o amor descartável. Ambas tendem a encaminhar à frustração, e isso é que garante sua estabilidade de manipulação.
O debate é instigante, mas não deveríamos olhar apenas com preconceito. A Indústria Cultural também se abre para aquilo que circula em sentimentos. Existe uma carga de banalização enorme, mas também acaba trazendo amores que estão na sociedade e são reais. A Indústria Cultural trata do amor de forma banal em sua maior parte, mas também traz o amor verdadeiro em determinados produtos. Não devemos nos negar em totem àquilo que é feito pela Indústria Cultural. Filmes como “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, “A Fraternidade Vermelha” e “A Insustentável Leveza do Ser” mostram uma visão do amor que é instigante, provando que a Indústria Cultural pode trazer produtos culturais, ainda que mercadológicos, muito bons.
Não podemos transformar a parte no todo. Existem as mediações, formalizamos nossas visões. É preciso ter uma visão crítica sobre a Indústria Cultural, assim como é preciso ter uma visão crítica sobre a sociedade.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Erótico.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
As outras Augustas

Por Guilherme Peace e Lívia Nunes
Há uma variedade muito grande de garotas-de-programa na Rua Augusta. Elas podem ser encontradas nas calçadas, nos bares, nos estabelecimentos “especializados”. Em sua maior parte, são garotas e mulheres comuns, com idades entre 18 e 40 anos, bem aparentadas e de fácil acesso. Porém, entender o motivo da escolha destas meninas pela “profissão”, requer mais do que as simples entrevistas que fizemos, buscando compreender um lado mais “humanista” das prostitutas da Rua Augusta.
Conversamos com muitas garotas de programa, em seu ambiente de trabalho, e apenas trazemos aqui uma ínfima parte, curiosa, talvez, de seu interior.
Nomes falsos, roupas vulgares, atitudes extravagantes, drogas e sensualidades forçadas. Vários são os artifícios utilizados pelas “Augustas” (como as chamaremos) para encarar a vida que escolheram, a forma mais “fácil” de conseguir o dinheiro para satisfazerem as necessidades básicas e as supérfluas. Há uma encenação natural, paulatinamente crescente, que as garotas usam para esconder a tristeza (ou o descaso, como em uma das meninas que encontramos) que as assolam o tempo todo. Elas entendem o papel que fazem, de desejo proibido, comprado, e utilizam destas ferramentas para continuarem em sua atuação.
“É tudo ensaiado”, diz Teca, uma das garotas-de-programa da rua Augusta. “Os homens gostam de ser enganados”. A garota de vinte e um anos diz que trabalha para construir uma casa. “Uma amiga trabalhou por dois ou três anos e conseguiu construir uma casinha até que boa. Terminarei a minha e aí sim, largarei esta vida.” Não é como pensa a maioria delas, pelo que constatamos.
Madá, 19, diz que gosta da noite. “É dinheiro fácil e ‘grosso’, apenas tendo que abrir as pernas. A maioria das meninas trabalha porque gosta”. Apesar disso, ela explica, ainda sonha encontrar um amor na noite. “Sei que é um sonho imbecil, mas já aconteceu antes, e sei que pode acontecer comigo”.
Outra “Augusta”, que preferiu não se identificar, resolveu contar sobre os bastidores da profissão que deixou de exercer há sete anos. Hoje, com 42, ela é instrumentadora cirúrgica - curso que pagou com o dinheiro da prostituição - faz apenas programas esporádicos, uma vez por mês no máximo, e conta: “A maioria de nós preza a amizade. Nos defendemos. Somos amigas, em nosso meio. Muitas garotas vem de outras cidades, por isso alugam casas juntas, ou moram no próprio prostíbulo. São mentirosas, quando falam com o cliente, ou com jornalistas. Gostam de dizer que estão pagando a faculdade, ou uma casa, ou que é um serviço passageiro, apenas para ganhar uns trocados. Mas acabam se viciando no dinheiro fácil e na vida à noite. Várias delas acabam se viciando em cocaína ou outras drogas, e precisam manter seu vício. O dinheiro dos programas é a única forma que encontram, já que não querem, ou não sabem, trabalhar em nenhuma outra profissão”. Ela deixa escapar que tem um filho de 21 anos, e perguntamos qual seria sua reação se o visse entrando em um dos prostíbulos em que trabalha ou trabalhou. Visivelmente alterada, ela tenta contornar: “Meu filho não freqüenta estes lugares. Não acho que seja lugar para ele”.
Talvez o caso mais chocante que encontramos entre estas garotas da noite, tenha sido o de Júlia. Com dezoito anos e grávida de oito meses, a moça respondeu laconicamente às nossas perguntas, pois estava altamente drogada. Ela apenas sorria e balançava a cabeça, enquanto uma colega de profissão explicava: “Ela nunca pensou e nem pensa em estudar. Tem um namorado que sabe da profissão dela, e abusa muito, pedindo dinheiro. Eles se drogam juntos, com ‘pó’, maconha e outras coisas ‘sintéticas’. Mora muito longe, mas vem todos os dias, mesmo estando grávida. É nossa ‘xodózinha’. Apesar da barriga, consegue muitos programas por noite. Tem homens que gostam de coisas assim, diferentes. Talvez sejam fetiches...”
Elas nos dispensam para poderem atender aos clientes. A responsável pela casa de prostituição, a “cafetina”, as chama ao serviço, batendo palmas: “Vamos trabalhar, tem cliente na casa!”. Antes de sairmos, porém, descobrimos que o dono do local tem mais cinco ou seis estabelecimentos do gênero, apenas na Rua Augusta, mas só aparece às vezes, de dois em dois meses, para vistoriar os lucros. Nenhum envolvimento com as suas “funcionárias”.
Assim, nos despedimos, agradecendo a atenção que nos foi dedicada pelas meninas. E mais uma noite de trabalho começa, mais uma noite de encenação e de prostituição para as nossas “Augustas”.